O direito de sermos filhos ❤️

1 de junho de 2026 — Dia Mundial da Criança

Hoje é o Dia Mundial da Criança.

Um dia que deveria ser de alegria, de sorrisos, de abraços apertados, de brincadeira, mas para mim, foi mais um dia marcado pela vossa ausência.

Mais um dia em que gostaria de vos ter por perto, de vos abraçar, de vos mimar, de vos ver sorrir. De fazer aquilo que sempre fiz neste dia.

E é precisamente por ser o Dia Mundial da Criança que hoje me apetece refletir sobre algo que considero tão importante e que, infelizmente, tantas vezes parece ser esquecido, o direito que todas as crianças têm de amar e ser amadas pelos seus pais. Pelos dois.

A vida nem sempre corre como imaginamos. Os casamentos acabam, os caminhos separam-se, os sentimentos mudam e, por vezes, aquilo que um dia foi uma história de amor transforma-se numa separação, marcada por desentendimentos, mágoas e conflitos.

Mas há algo que nunca deveria mudar, o amor pelos filhos e a responsabilidade de os proteger.

Porque podemos deixar de ser marido e mulher, podemos deixar de partilhar a mesma casa, os mesmos sonhos ou o mesmo futuro, mas nunca deixaremos de ser pai e mãe.

E os nossos filhos nunca deixarão de ser nossos filhos.

Não há separação, discussão, ressentimento ou diferença de opinião que deva ser mais importante do que isso.

Os filhos não pediram para nascer. Não escolheram os pais, não decidiram que estes se separassem e, muito menos, deveriam ser chamados a suportar o peso das decisões dos adultos.

São, tantas vezes, os mais inocentes e, infelizmente, aqueles que mais sofrem.

E é isso que me custa compreender.

Como é possível que, no meio das nossas divergências, nos esqueçamos de que existem crianças que precisam de ambos? Que precisam do colo da mãe e do abraço do pai. Que precisam de saber que podem amar os dois, sem receios, sem culpas, sem terem de escolher lados.

Uma criança nunca deveria sentir que, para amar um dos pais, tem de se afastar do outro.

O amor não se divide dessa forma. O amor multiplica-se.

O amor de uma mãe não diminui porque um filho ama o pai…e o amor de um pai não diminui porque um filho ama a mãe.

Pelo contrário. Quanto mais amor uma criança receber, mais segura, mais feliz e mais preparada estará para enfrentar a vida.

Este é um espaço só meu, mas se pudesse, neste Dia Mundial da Criança, deixar uma mensagem a todos os pais que, por uma razão ou por outra, vivem situações de separação, e que como no meu caso um dos pais se apropriou da parentalidade, como se o amor e a responsabilidade de educar fossem um privilégio exclusivo seu, seria precisamente esta:

Não permitam que as vossas diferenças roubem aos vossos filhos aquilo que nunca deveria ser-lhes retirado.

Não transformem os filhos em mensageiros, em confidentes, em árbitros ou em testemunhas dos vossos conflitos.

Não lhes peçam, mesmo que indirectamente, que escolham entre aqueles que mais amam.

Não deixem que o orgulho, a mágoa ou o ressentimento se sobreponham à felicidade deles.

Não contaminem a mente dos vossos filhos, com o poder que têm sobre os seus sentimentos. Os filhos não precisam de herdar as vossas mágoas

Porque a infância passa depressa. Depressa demais!

Os dias que hoje perdemos não voltam. Os aniversários, os Natais, as férias, as brincadeiras, os pequenos acontecimentos da escola, as conversas antes de adormecer… tudo isso acontece uma única vez.

E um dia, quando olharmos para trás, talvez percebamos que desperdiçámos tempo precioso em conflitos que nunca deveriam ter sido maiores do que o amor que sentimos pelos nossos filhos.

Eu sei bem o que significa perder esse tempo.

Sei o que é acordar e adormecer a pensar em vocês. Sei o que é passar por lugares onde fomos felizes e sentir um aperto no peito. Sei o que é ter tantas coisas para vos contar, tantos abraços para vos dar, tantos momentos que gostaria de partilhar convosco e não o poder fazer.

Há uma carta que traduz, de uma forma particularmente simples e profunda, muito daquilo que hoje sinto e que gostaria que todos os pais separados pudessem ler. Um dia enviei-a à mãe dos meus filhos, infelizmente não lhe deu ouvidos.

Não é uma carta escrita por mim. É uma carta escrita na perspetiva de um filho, dirigida aos seus pais separados. E talvez seja precisamente por isso que as suas palavras tenham tanta força.

Porque, no meio de tantas discussões entre adultos, talvez devêssemos ouvir mais aquilo que os nossos filhos gostariam de nos dizer.


CARTA DE UM FILHO AOS SEUS PAIS SEPARADOS

Queridos mamã e papá:

Digam-me com palavras e atitudes que posso continuar a amar-vos a ambos e ajudem-me a manter um relacionamento próximo com ambos. Afinal, foram vocês que escolheram ser meus pais.

Não me façam testemunha, árbitro ou mensageiro responsável pela cobrança de uma apólice que não é minha.

Tenham em mente que qualquer coisa que façam para se magoarem um ao outro, quer queiram quer não, me irá magoar pessoalmente em primeiro lugar.

Não se critiquem nem se menosprezem diante de mim, mesmo que tudo o que digam seja verdade. Entendam que, por muito maus que tenham sido como casal, são os meus pais e, portanto, preciso de ver os dois tanto quanto possível. Não lutem para ver qual fica comigo, pois não pertenço a nenhum, mas preciso de vocês os dois.

Lembrem-se que estar comigo é um direito, não um privilégio que ambos têm e que eu tenho.

Não me coloquem em situações em que tenho de escolher com quem ir ou de que lado estou. Para mim é uma tortura porque sinto que se escolher um sinto falta do outro, e amo e preciso de ambos. Digam-me que não tenho culpa da vossa separação, que a decisão foi vossa e que não tenho nada a ver com isso.

Compreendam que quando chego zangado depois de estar com o meu pai/mãe, não é porque ele me envenena, mas porque estou triste e zangado com ambos porque já não consigo viver permanentemente com os dois.

Nunca deixem de cumprir um compromisso ou visita que prometeram. Não fazem ideia da excitação com que aguardo a vossa chegada, nem da grande dor que me causa voltar a ver que falharam.

Não me peça para servir de espião ou para lhe contar como vive ou o que faço com o meu outro pai. Sinto-me desleal para com ele e não quero ser informador. Não me use como instrumento da sua vingança, contando-me tudo sobre o quão mau o meu pai/mãe foi. A única coisa que certamente conseguirão é que eu fique cheio de ressentimento contra aqueles que tentam deteriorar uma imagem que preciso de manter muito elevada.

Certifique-se de que compreendi que, embora o seu relacionamento conjugal tenha terminado, o nosso relacionamento é diferente e continuará sempre.

Lembre-se que embora a separação possa ser uma oportunidade para terminar um casamento infeliz ou estabelecer uma nova relação, para mim constitui a perda da única oportunidade que tenho de crescer ao lado das pessoas que mais amo e mais preciso: o meu pai e a minha mãe.

Lembrem-se que a melhor coisa que podem fazer por mim, agora que já não se amam, é respeitarem-se um ao outro.

Se a relação não resultou como casal, pelo menos deixem que funcione como pais. “


Depois de ler esta carta, fica-me uma pergunta que gostaria que todos os pais separados fizessem a si próprios. Será que, no meio das nossas razões, das nossas mágoas e das nossas certezas, estamos verdadeiramente a pensar na felicidade dos nossos filhos?

Porque amar um filho não é apenas dizer-lhe que o amamos. É também respeitar os seus sentimentos, compreender as suas necessidades e, muitas vezes, colocar o seu bem-estar acima daquilo que nós próprios sentimos.

Ser pai ou mãe não nos torna donos dos nossos filhos. Torna-nos responsáveis por eles, pela sua felicidade, pela sua segurança e pelas memórias que levarão consigo para o resto da vida.

E nenhuma criança deveria crescer com a sensação de que amar o pai é trair a mãe, ou que amar a mãe é trair o pai.

Meus queridos filhos, se um dia lerem estas palavras, quero que saibam que nunca desejei que tivessem de viver nada disto.

Nunca quis que a vossa infância fosse marcada por ausências, por silêncios ou por situações que talvez nem consigam compreender.

Queria apenas que fossem crianças. Que brincassem, que rissem, que fossem felizes. Que crescessem com a tranquilidade de saber que tinham uma mãe e um pai que vos amavam, mesmo que já não vivessem juntos.

E, acima de tudo, que nunca sentissem que tinham de escolher entre nós.

Porque vocês têm o direito de amar a vossa mãe e têm o direito de amar o vosso pai.

E nós, enquanto pais, temos o dever de respeitar esse amor.

Hoje, neste Dia Mundial da Criança, não vos pude dar o abraço que tanto desejava.

Mas deixo-vos estas palavras, na esperança de que um dia compreendam que, mesmo nos momentos em que não estive presente, nunca deixei de estar convosco em pensamento.

E se há algo que desejo para todas as crianças do mundo, é que nunca tenham de pedir aquilo que deveria ser tão natural, o direito de serem filhos, simplesmente filhos, sem carregarem o peso dos problemas dos adultos.

Feliz Dia Mundial da Criança, meus queridos!

Até ao próximo abraço, meus filhos.

Amo-vos muito. ❤️

Papis

01.06.2026

(foto tirada na Costa Nova 2 meses após a separação)