Hoje é Dia do Pai !
E que bom é sê-lo! Dirão certamente todos os pais. E muitos filhos também.
É um dia de abraços, de beijos, de pequenos presentes feitos na escola, de mensagens carinhosas, de almoços em família. Um dia em que celebramos aqueles que nos deram a vida, que nos ensinaram a caminhar e que, tantas vezes, mesmo sem o sabermos, nos ensinaram também a ser quem somos.
Mas, para mim, o Dia do Pai sempre teve um significado diferente.
Porque, antes de conhecer a felicidade de ser pai, conheci demasiado cedo a dor de deixar de ter um.
Perdi o meu pai quando tinha apenas 15 anos.
Ainda hoje me lembro daquele dia como se tivesse acontecido ontem.
8 de junho de 1988.
Era o último dia de aulas do meu 9.º ano. O início de uma tarde que deveria ter sido feliz, marcada pelas despedidas, pelas brincadeiras e pela alegria própria de quem termina mais um ano escolar.
Estávamos todos reunidos no recreio, a tirar a tradicional fotografia de turma com o nosso professor de Biologia. Éramos jovens, despreocupados, cheios de sonhos e com uma vida inteira pela frente. O professor tentava organizar-nos para conseguir a fotografia perfeita.
E foi naquele instante que o meu mundo mudou para sempre.
Vi o meu tio António entrar no recreio, acompanhado por uma contínua da escola (ou uma dona, como hoje lhes chama a minha filha).
Não sei explicar porquê, mas percebi imediatamente.
Antes de alguém me dizer alguma coisa, eu já sabia.
Os olhos do meu tio, profundamente tristes, procuraram os meus. Ficámos a olhar um para o outro e, naquele silêncio, tudo foi dito.
Não foram precisas palavras.
O meu pai tinha partido, morrido, não existe outra forma de o dizer.
Um vazio imenso invadiu-me a alma. Um desespero que não sabia explicar, que não conseguia controlar e que, aos 15 anos, não estava preparado para enfrentar.
Há momentos na vida que nunca desaparecem da nossa memória. Podemos esquecer milhares de dias, milhares de rostos, milhares de conversas, mas há segundos que ficam gravados em nós para sempre.
Aquele foi um deles.
Naquele recreio, naquele preciso instante, deixei de ser apenas um adolescente.
A vida obrigou-me a crescer.
Eu tinha 15 anos. A minha irmã tinha apenas 10.
Ficámos órfãos de pai.
E a vida, que até então conhecíamos, nunca mais foi a mesma.
Foram tempos muito difíceis. A vida foi dura, madrasta, tantas vezes injusta. Chorámos muito. Eu, a minha irmã, a minha mãe. Chorámos durante dias, meses, anos. Chorámos pela ausência, pela saudade, pelas coisas que nunca mais poderíamos fazer juntos e por todas aquelas que ainda nem sequer tínhamos tido oportunidade de viver.
Ainda hoje choro.
Ainda hoje sinto a tua falta…PAI!
E ainda hoje rezo para que a luz de Deus ilumine a tua alma.
Gostava de te ter dito tantas coisas. Gostava de te ter feito tantas perguntas. Gostava de ter tido mais tempo para te conhecer, para te compreender e, sobretudo, para te mostrar o homem em que me tornei.
Acho que irias ter orgulho de mim!
Mas a vida não nos deu essa oportunidade….nem a mim, nem à minha irmã.
Felizmente, deu-nos uma mãe extraordinária.
Uma mãe que, de um dia para o outro, teve de aprender a ser mãe e pai ao mesmo tempo.
E soube sê-lo!
Com uma força que só hoje, depois de adulto e de me tornar pai, consigo verdadeiramente compreender.
A ela devo praticamente tudo.
Os sacrifícios que fez por nós, as dificuldades que enfrentou, as preocupações que guardou para si, as noites que certamente passou acordada, as lágrimas que terá escondido para não nos fazer sofrer ainda mais.
Tudo isso é indescritível.
Penso que eu e a minha irmã sempre procurámos ser bons filhos. Talvez a minha irmã tenha conseguido sê-lo melhor do que eu…talvez não…tenho a certeza! Como tenho a certeza e reconheço, com alguma tristeza, que poderia e deveria ter feito mais pela felicidade da minha mãe.
A vida passa depressa demais. Andamos tantas vezes ocupados com aquilo que julgamos ser importante e esquecemo-nos de dedicar tempo àquilo que verdadeiramente importa.
Nos últimos tempos tenho procurado recuperar algum desse tempo perdido.
Mas sei que, por mais que faça, dificilmente conseguirei retribuir tudo aquilo que ela merece.
Amo-te, mãe!
E se hoje sou o homem que sou, muito te devo a ti.
Voltando ao meu pai…
Quantas vezes imaginei como teria sido vê-lo com os seus netos.
A Ana e o Pedro.
Como gostaria que os tivesse conhecido!
Tenho a certeza de que aquele homem sério, por vezes rígido e de isciplinador, teria amolecido perante os sorrisos, as brincadeiras e as traquinices dos meus filhos.
Imagino-o a brincar com o Pedro, a ouvir as histórias da Ana, a sorrir com aquele orgulho discreto que tantos avós têm e que nem sempre conseguem esconder.
Imagino os meus filhos a chamarem pelo avô.
E dói-me saber que nunca puderam fazê-lo.
A vida roubou-lhes essa oportunidade.
E roubou-me a mim a felicidade de os ver juntos.
Talvez por ter perdido o meu pai tão cedo, Sempre soube o que significa crescer com uma ausência que ninguém consegue preencher.
Sempre soube o que custa desejar um abraço que já não podemos receber.
E talvez por isso nunca tenha imaginado que, tantos anos depois, a vida me colocaria perante outra ausência tão dolorosa.
Desta vez, do outro lado.
Antes fui um filho sem pai. Hoje sou um pai sem os filhos nos braços.
Que ironia cruel do destino.
Depois de tudo o que sofri pela ausência do meu pai, encontro-me agora a sofrer pela ausência dos meus próprios filhos.
Não porque tenha deixado de os amar.
Não porque tenha deixado de querer estar presente.
Mas porque as circunstâncias que hoje vivemos me afastaram deles, contra aquilo que mais desejo.
E assim chegou este Dia do Pai.
O primeiro em que sabia que não iria ter os meus filhos comigo.
Pelo menos a minha filha.
Quanto ao Pedro, tinha uma esperança.
Uma esperança pequena, mas que, para mim, significava tudo.
Ir à escola, vê-lo por breves instantes e dar-lhe um beijo.
Era esse o meu plano para o Dia do Pai.
Não um almoço, não um passeio, não uma tarde de brincadeiras. Apenas um beijo, através da rede de uma escola….uma outra vez.
E assim foi.
Mais uma vez, foi ali que o encontrei.
Aquele lugar que, de repente, se transformou no único sítio onde consigo ver o meu filho.
Mesmo que uma rede nos separe.
Tudo se repetiu, quase como no dia do seu aniversário.
Os colegas reconheceram-me. Começaram a chamar por mim e, logo depois, por ele.
E lá veio o meu Pedro.
Mais uma vez, aquela correria que me enche o coração e que, por breves segundos, faz desaparecer tudo o resto.
Aproximou-se da rede.
Trocámos algumas palavras.
Dei-lhe um beijo e fiz-lhe carícias no rosto, tentando aproveitar cada segundo, como se pudesse guardar naquele instante todos os abraços que ficaram por dar.
Perguntei-lhe se estava bem.
Disse-me que sim.
Perguntei-lhe se tinha saudades minhas. Da avó. Dos padrinhos. Dos primos.
Encolheu os ombros. Havia alguma hesitação nas suas respostas, um cuidado nas palavras que me entristeceu profundamente.
Mas acabou por dizer que sim.
E acrescentou:
Mas a mana e a mãe é que sabem.
Aquelas palavras ficaram a ecoar dentro de mim.
Como pode uma criança de apenas nove anos sentir que decisões tão importantes, que dizem respeito ao amor e à relação com o seu próprio pai, não dependem também daquilo que ela sente?
Como pode um menino daquela idade carregar nos ombros um peso tão grande?
Não quis prolongar aquele momento, nem colocar o meu filho numa situação ainda mais difícil.
Disse-lhe apenas:
Não faz mal, filho. O que importa é saberes que gosto muito de ti. Que todos gostamos muito de ti. De ti e da mana.
E despedi-me.
Mas, desta vez, custou ainda mais.
Cada despedida parece custar mais do que a anterior.
Porque nunca sei quando voltarei a vê-lo.
Porque nunca sei quanto tempo passará até poder voltar a tocar-lhe no rosto.
Porque nenhum pai deveria ter de contar os segundos que lhe são permitidos passar com o seu filho.
Afastei-me.
O Pedro ficou a olhar para mim enquanto eu caminhava, acompanhado pelos gritos e pelas vozes dos amigos, naquela alegria espontânea que só as crianças sabem ter.
E eu fui embora.
Com o coração cheio por o ter visto….e completamente vazio por ter de o deixar.
É difícil explicar esta contradição.
Estar feliz por conseguir dar um beijo ao nosso filho e, ao mesmo tempo, profundamente triste porque esse beijo é tudo aquilo que nos resta de um dia que deveria ser nosso.
O resto da tarde passou lentamente.
Até que recebi uma mensagem da minha filha.
“Olá, logo ligamos.”
Uma mensagem curta. Seca, até.
Mas, para quem vive à espera de um sinal, de uma palavra, de um pequeno gesto, aquelas três palavras significavam muito.
Iam ligar!
Ia ouvir as suas vozes!
Talvez conseguisse falar um pouco com a Ana, ouvir o Pedro, perguntar-lhes pelo dia, dizer-lhes que os amava.
Naquele momento, só queria que o tempo passasse depressa.
Que o logo chegasse a toda a velocidade.
Respondi à minha filha.
Disse-lhe que preferia estar com eles. Que gostaria de os ver, de lhes dar um beijinho, nem que fosse por dois minutos.
Dois minutos.
Era tudo o que pedia.
Mas não recebi resposta.
Os minutos passaram.
Depois as horas.
E o logo parecia nunca mais chegar.
Olhava para o telemóvel, vezes sem conta.
A esperança mantinha-me preso àquela pequena promessa.
Talvez estivessem ocupados.
Talvez ligassem depois do jantar.
Talvez estivessem apenas à espera do momento certo.
Fui encontrando explicações para o silêncio, porque, quando desejamos muito uma coisa, agarramo-nos a qualquer possibilidade de ela acontecer.
Até que passaram alguns minutos das 21h30.
E a ansiedade começou a transformar-se em desilusão.
A esperança de um reencontro, mesmo que fosse apenas através de uma chamada telefónica, começava a desaparecer.
Enviei nova mensagem.
Perguntei se já não iam ligar.
A resposta chegou pouco depois, também em mensagem.
“Era só para mandar um beijinho de nós os dois de Dia do Pai.”
Fiquei a olhar para aquelas palavras.
Era só isso.
Um beijinho por mensagem.
Era essa, afinal, a celebração do meu Dia do Pai.
Ainda tentei telefonar.
Uma vez mais.
Mas, como em tantas outras ocasiões, não consegui falar com eles.
E assim terminou o dia.
Sem ouvir a voz da minha filha.
Sem ouvir a voz do meu filho.
Sem os abraçar.
Sem lhes dar um beijo de boa-noite.
Sem sequer lhes poder dizer, olhando-os nos olhos, o quanto os amo.
O Dia do Pai tinha sido, afinal, mais um dia sem os meus filhos.
E não consegui deixar de pensar na ironia de tudo aquilo.
Em criança, passei tantos Dias do Pai a sentir a falta do meu.
Agora, adulto, pai de dois filhos maravilhosos, voltava a viver esse dia com o mesmo vazio.
Mas com uma diferença profundamente dolorosa.
O meu pai tinha partido para sempre.
Os meus filhos estão vivos, estão perto, crescem todos os dias, continuam a precisar de amor, de atenção, de carinho.
E, ainda assim, não os posso abraçar como gostaria.
Talvez seja esta uma das formas mais difíceis de saudade.
Ter saudades de alguém que está vivo. De alguém que está perto. De alguém a quem poderíamos chegar em poucos minutos, mas de quem nos sentimos separados por uma distância imensa.
Naquela noite, com o coração apertado, escrevi à minha filha.
Não queria que o dia terminasse sem lhes deixar as minhas palavras.
Sem lhes dizer aquilo que sentia.
Sem lhes recordar que, apesar de tudo, continuo aqui.
E foi esta a mensagem que lhes enviei:
Olá filha,
Esperava ouvir pelo menos a vossa voz…mas pronto.
Hoje é Dia do Pai, Infelizmente perdi o meu era ainda muito novo, mais novo do que tu és…e por isso neste dia sinto ainda mais a vossa falta, tua e do Pedro, sinto também uma profunda e enorme tristeza, pela falta dos nossos momentos, por não vos ver, pelas coisas simples do dia-a-dia, pelas nossas brincadeiras, e as nossas gargalhadas.
Quero que saibam que jamais alguém, em momento algum, terá a capacidade de me fazer esquecer da minha “pena branca” 🪶 e da minha “pequena locomotiva” 🚂. Vocês são parte de mim, para sempre.
A distância física custa muito… assim como a distância emocional. Mas há uma coisa que nunca muda, nem mudará, o amor imenso que sinto por vocês. Esse amor é eterno, é insubstituível, é mais forte do que qualquer distância.
Tenho dentro de mim uma força e uma fé enormes… e é por vocês que luto e vivo. Nada vai apagar a importância que têm na minha vida.
Continuarei sempre a ser o vosso pai, nunca desistirei, e lutarei todos os dias, enquanto o tempo e a distância nos separarem.
Estarei sempre aqui… sempre… para quando precisarem de mim.
Lamento profundamente se de alguma forma vos desiludi, com a alteração que aconteceu nas nossas vidas, quero que saibam que nada me entristece mais que isso, porque vocês não o mereciam. Porém, tudo o que aconteceu foi a pensar no bem de todos… mesmo que hoje possa ser difícil de entender. Acredito que um dia, com o tempo e com a vida, vão perceber.
Tenho uma sorte enorme por vos ter como filhos e tenho um orgulho ainda maior de vocês os dois.
Amo-vos mais do que tudo na vida.
Papis
E foi assim o meu Dia do Pai.
Um dia em que recordei, com saudade, o pai que perdi.
Em que agradeci, uma vez mais, à mãe que nunca nos deixou faltar o amor dos dois.
E em que chorei a ausência dos filhos que tanto amo.
A vida tem destas ironias difíceis de compreender.
Aos 15 anos, perdi o meu pai e pensei que não existiria dor maior do que aquela.
Hoje, tantos anos depois, descubro uma dor diferente, mas igualmente profunda, a de ser pai e não poder viver plenamente essa felicidade.
E, no entanto, há algo que a vida também me ensinou.
O amor de um pai não se mede pelo número de dias que passa com os filhos, mas pela forma como os guarda no coração, mesmo quando não os pode ter nos braços.
O meu pai partiu há tantos anos e continua comigo.
Na memória, nos valores, nas saudades e em tantas pequenas coisas que fazem parte de quem sou.
E quero acreditar que, um dia, os meus filhos também compreenderão que, mesmo nos momentos em que não estivemos juntos, nunca deixei de estar presente no meu amor por eles.
Que nunca houve um dia em que não pensasse neles.
Que nunca houve uma noite em que não desejasse dar-lhes um beijo antes de adormecer.
Que nunca houve uma distância capaz de os afastar do meu coração.
A minha querida Ana. O meu pequeno Pedro.
A minha pena branca. 🪶 A minha pequena locomotiva. 🚂
Não sei quantos Dias do Pai terei ainda de viver assim.
Não sei quando voltaremos a partilhar as pequenas coisas que antes faziam parte da nossa vida.
Mas sei aquilo que desejo.
Desejo que chegue o dia em que esta saudade seja apenas uma memória triste de um tempo que conseguimos ultrapassar.
Que possamos voltar a rir juntos, a brincar, a conversar sobre tudo e sobre nada.
Que os abraços voltem a ser naturais, espontâneos, sem pressas e sem despedidas antecipadas.
E que, num próximo Dia do Pai, não precise de olhar para o telemóvel à espera de uma mensagem ou de uma chamada.
Que possa simplesmente acordar, olhar para vocês e dizer:
Que sorte a minha por ser vosso pai!
Porque, no fundo, é só isso que desejo.
Não preciso de presentes.
Não preciso de palavras bonitas.
Preciso apenas dos meus filhos.
E de voltar a sentir aquilo que nenhum pai deveria perder, a felicidade imensa de os ter nos braços.
Feliz Dia do Pai, meu querido pai, onde quer que estejas.
E feliz Dia do Pai para mim também.
Mesmo sem os meus filhos nos braços.
Porque, apesar de tudo, continuo a ser pai. E nunca deixarei de o ser.
Até ao próximo abraço, meus filhos.
Amo-vos muito. ❤️
Papis
19.03.2026