Dois meses sem vocês… ❤️

Há silêncios que fazem mais barulho do que todas as palavras do mundo.

Dois meses…

Dois meses sem vocês. Sem os vossos abraços, sem ouvir as vossas vozes, sem as nossas conversas, sem as brincadeiras, sem os pequenos momentos que tantas vezes damos por garantidos e que, afinal, são os mais importantes da nossa vida.

Dois meses que parecem uma eternidade.

Não sei se algum dia conseguirei explicar-vos verdadeiramente o que significa para um pai viver esta ausência. A dor que provoca, o vazio que deixa, a impotência de querer mudar as coisas e não conseguir.

Durante o dia custa. Custa muito.

Mas é à noite que tudo se torna mais difícil.

É quando me deito, quando encosto a cabeça à almofada e o silêncio toma conta de tudo, que as saudades parecem ganhar uma dimensão ainda maior.

Há noites em que adormeço a pensar em vocês. Outras em que acordo a meio da madrugada e já não consigo voltar a dormir.

Fico ali, de olhos abertos, no escuro, com as vossas imagens sempre presentes no pensamento.

Recordo os vossos rostos, os vossos sorrisos, as vossas vozes. Recordo momentos que vivemos juntos, palavras que disseram, abraços que me deram.

E penso…

Penso no que aconteceu. No que mudou. No que poderia ter sido diferente.

A minha mente procura incessantemente explicações para algo que continuo sem conseguir compreender.

Como foi possível que tudo se alterasse tão rapidamente?

Como foi possível que, depois de tantos momentos felizes, de tantos planos e de tantas demonstrações de carinho, chegássemos a esta distância?

E, sobretudo, como foi possível que vocês, ainda tão novos, se vissem envolvidos numa turbulência que nunca deveria ter feito parte das vossas vidas?

Talvez sejam perguntas para as quais nunca encontre respostas.

Mas há uma coisa que não consigo evitar, voltar, vezes sem conta, às nossas memórias.

Quando começámos a construir a nossa nova vida

Depois da separação da vossa mãe, tivemos vários meses em que tudo parecia estar a correr tão bem.

Naturalmente, não era uma situação fácil para ninguém. A nossa vida tinha mudado e estávamos todos a aprender a viver uma realidade diferente.

Mas havia uma coisa que me deixava particularmente feliz: sentir que estávamos a conseguir.

Que continuávamos a ser felizes juntos.

Que, apesar de já não sermos quatro, os nossos momentos a três continuavam cheios de amor, alegria e cumplicidade.

Lembro-me tão bem de começarmos a preparar a nossa nova casa.

E digo nossa casa porque, desde o primeiro momento, nunca a imaginei apenas como minha.

Era a minha casa, mas era também a vossa casa.

O lugar onde queria que se sentissem felizes, seguros e onde pudéssemos continuar a construir memórias.

Recordo as nossas idas ao IKEA.

Meu Deus, como me lembro de tudo!

A escolha das camas, dos móveis dos quartos, das secretárias, dos colchões, dos lençóis, das coberturas, das almofadas…do vaso para o teu quarto filha.

Tudo escolhido por nós.

Tudo pensado para vocês.

E lembro-me de ti, Pedro, sempre tão participativo, até a escolher coisas para o quarto da tua irmã!

E aquela ida à Hôma?

Como esquecer a história do banco branco de pelo?

Um simples banco branco que queríamos colocar no quarto da tua irmã e que tu, Pedro, também querias.

Ainda hoje me rio sozinho ao recordar tudo aquilo que tivemos de te prometer para aceitares que o banco ficasse para ela!

E as televisões que fomos escolher à Rádio Popular para os vossos quartos…

Tantas coisas.

Tantos momentos de diversão.

Tantas brincadeiras.

Tantos vídeos que fomos fazendo e que hoje guardo como verdadeiros tesouros.

Mas há uma coisa de que me lembro especialmente.

Quase sempre que vos ia buscar, lá vinha a pergunta:

Então, pai, as coisas já chegaram?

E logo a seguir:

Quando vamos conhecer a tua casa?

E eu respondia, com um sorriso:

Está quase!

Mal imaginava eu que aqueles momentos, aparentemente tão simples, se tornariam algumas das recordações mais preciosas da minha vida.

O dia 16 de julho… ❤️

Há datas que ficam gravadas para sempre.

O dia 16 de julho é uma delas.

Foi o dia em que fomos ver a nossa nova casa pela primeira vez.

Lembro-me de vos ver entrar, curiosos, entusiasmados, a descobrir os espaços e a imaginar como tudo iria ficar.

Mas há um momento desse dia que nunca, nunca esquecerei.

Pedro, quando chegámos aos quartos, escolheste aquele que ficava mais perto do meu.

E disseste-me:

Quero este, pai, porque depois vou começar aqui a dormir não é ? e, de noite, quero estar mais perto de ti. Mas não é por ter medo! 🙂 (eu e a tua irmã rimo-nos).

Ainda hoje consigo ouvir a tua voz a dizer estas palavras.

Não sei se alguma vez perceberás o significado que tiveram para mim.

Aquele quarto não era apenas um quarto.

Era a tua vontade de estares perto de mim.

Era a confiança, o carinho e a segurança que sentias.

E, para mim, isso valia mais do que qualquer coisa que pudesse comprar.

O dia 9 de agosto… A nossa casa! ❤️

Se o dia 16 de julho ficou gravado na minha memória, o dia 9 de agosto ficará para sempre no meu coração.

Foi o dia em que finalmente vos levei à nossa casa, já pronta.

Lembro-me da ansiedade que sentia antes de chegarmos.

Queria tanto que gostassem!

Queria tanto ver a vossa reação!

Tinha preparado tudo com um cuidado enorme, tentando imaginar os vossos sorrisos quando entrassem nos quartos.

E que momento maravilhoso foi aquele!

Ver-vos entrar, descobrir os espaços, reconhecer as coisas que tínhamos escolhido juntos…

Ver a vossa alegria.

Pedro, entraste no teu quarto tão entusiasmado, tão feliz com tudo, que nem reparaste na PlayStation que tanto me pedis-te, que estava em cima da tua secretária!

E foste tu, Ana, que perguntaste:

Pedro, já viste tudo?

Quando finalmente olhaste e percebeste o que estava ali…

Meu Deus!

A tua reação foi inesquecível.

Ficaste tão excitado, tão feliz, que correste para mim e me deste um beijo e um daqueles abraços que um pai guarda para sempre.

Um abraço apertado.

Sentido.

Verdadeiro.

Um dos melhores abraços da minha vida.

Daqueles que não se compram, não se explicam e nunca se esquecem.

E tu, Ana…

Lembro-me de entrares no teu quarto com algum receio, talvez misturado com ansiedade e emoção.

Foste descobrindo tudo aquilo que tinhas escolhido.

E depois, quando percebeste que aquele espaço era realmente teu, ficaste tão feliz que saltaste para cima da cama!

Como gostei de vos ver assim.

Como fui feliz naquele dia.

Naquele momento, senti que todo o esforço tinha valido a pena.

Não pelas coisas materiais.

Não pelos móveis, pelas televisões ou pela PlayStation.

Mas porque tinha conseguido criar um lugar onde os meus filhos se sentiam felizes.

Um lugar onde podíamos continuar a ser nós.

As nossas férias, as nossas brincadeiras…

E depois vieram tantos outros momentos.

As nossas férias.

As idas à praia.

Ana, lembras-te de como não me largavas?

Não havia um minuto de descanso!

Ora querias jogar, ora querias ir à água, ora tinhas mais alguma ideia para fazermos juntos.

E eu lá ia, atrás de ti, entre brincadeiras, mergulhos e gargalhadas.

Como sinto falta disso!

Das nossas idas ao karting e do bowling com os primos.

E de tu Pedro dizeres que querias voltar, mas que da próxima vez tinham de ir todos, os padrinhos e a avó Cândida…

Querias juntar toda a gente.

Porque para ti, como para mim, a felicidade também estava em termos perto aqueles de quem gostamos.

E os nossos piqueniques?

E o Vaga Splash?

Pedro, estavas quase a conseguir nadar sozinho!

Lembro-me de estares na água, tão orgulhoso dos teus progressos, sempre a chamar-me Olha, pai! Já consigo!

E eu olhava. Claro que olhava!

Porque não há conquista pequena quando é um filho nosso a consegui-la.

E tu, minha filha, sempre tão determinada, a fazer o pino dentro da piscina e a pedir-me: Pai, grava por favor!

E eu gravava.

Gravava porque me pedias, porque achava graça e porque gostava de guardar aqueles momentos.

Nunca imaginei que, algum tempo depois, esses pequenos vídeos se tornassem tão importantes para mim.

Hoje vejo-os de outra maneira.

Vejo-os com um sorriso, mas também com uma saudade difícil de explicar.

Porque, durante aqueles instantes, parece que vos tenho novamente comigo.

Ouço as vossas vozes.

Vejo os vossos sorrisos.

E, por breves momentos, volto a sentir a felicidade daqueles dias.

E depois… tudo mudou.

Olhando para trás, percebo que, durante aqueles meses, fui genuinamente feliz.

Apesar das dificuldades da separação, sentia que estávamos a encontrar o nosso caminho.

Que vocês estavam a conseguir adaptar-se.

Que os nossos momentos a três tinham um significado muito especial.

Nunca pensei que tudo pudesse mudar daquela forma.

Nunca imaginei que, pouco a pouco, o nosso convívio se fosse tornando mais difícil.

Que começassem a surgir obstáculos, justificações, situações que eu não compreendia.

Que aquilo que parecia tão natural -um pai estar com os seus filhos- se pudesse tornar tão complicado.

E que, no final do ano, chegássemos a uma situação que nunca pensei viver.

Recordo o meu aniversário, em que não vos pude ver porque, segundo me foi dito, estavam doentes.

Recordo o Natal, em que também não conseguimos estar juntos pelos mesmos motivos.

E recordo, sobretudo, a sensação de impotência.

A de querer estar convosco e não conseguir.

A de querer exercer o meu papel de pai e sentir que, progressivamente, perdia a possibilidade de participar nas vossas vidas como sempre desejei.

Não quero transformar estas páginas numa procura de culpados.

Nem quero que algum dia sintam que têm de justificar o que aconteceu.

Vocês são os meus filhos.

E nenhuma criança deveria carregar o peso dos problemas dos adultos.

Mas também não quero esconder aquilo que senti.

Porque este blogue nasceu precisamente para isso, para que um dia possam conhecer os meus sentimentos, as minhas memórias e a forma como vivi estes tempos de ausência.

A injustiça de querer estar e não poder…

Há uma coisa que, por vezes, me revolta profundamente.

Olho à minha volta e vejo pais que têm a possibilidade de estar com os filhos todos os dias e que, por diferentes razões, não valorizam essa oportunidade.

Pais que poderiam acompanhar o crescimento dos filhos, brincar com eles, conversar, partilhar momentos e criar memórias, mas que tantas vezes escolhem não o fazer.

E eu, que daria tanto por mais um dia convosco, vejo-me privado de momentos que nunca poderei recuperar.

Como a vida pode ser injusta!

Como pode dar a uns aquilo que outros tanto desejam e que não conseguem ter!

Mas talvez esta experiência também me tenha ensinado, de uma forma particularmente dolorosa, o verdadeiro valor das coisas.

Hoje sei que não há presente mais precioso do que o tempo.

Não há riqueza maior do que a presença daqueles que amamos.

Não há conquista profissional, bem material ou sucesso que se compare ao sorriso de um filho.

E não há nada, absolutamente nada, que substitua um abraço vosso.

Porque haverá alguma coisa melhor neste mundo do que estarmos junto de quem amamos incondicionalmente?

Eu não acredito.

Enquanto não vos abraço…

Meus queridos filhos,

Não sei o que o amanhã nos reserva.

Não sei quando voltaremos a estar juntos, a rir, a brincar ou simplesmente a conversar sobre as coisas mais banais do dia a dia.

Não sei se algum dia conseguiremos recuperar a naturalidade daqueles momentos.

Mas sei que continuo a desejá-los com a mesma intensidade.

Continuo a imaginar-nos na nossa casa.

Continuo a pensar nos vossos quartos, nas coisas que escolheram, nas memórias que ali começámos a construir.

Continuo a recordar o Pedro a escolher o quarto mais perto do meu.

A tua felicidade, Ana, quando entraste no teu quarto.

Os beijos e abraços que recebi de vocês nesse dia.

As nossas férias.

As nossas brincadeiras.

As vossas vozes a chamar por mim. Pai!

Uma palavra tão pequena.

E que hoje me faz tanta falta ouvir.

Talvez um dia, quando lerem estas páginas, consigam compreender um pouco melhor aquilo que senti durante a vossa ausência.

Não vos peço que compreendam tudo. Muito menos que sintam tristeza por mim.

Quero apenas que saibam que foram, são e serão sempre uma das partes mais bonitas da minha vida.

E que, mesmo nos dias em que não vos pude abraçar, nunca deixei de vos levar comigo.

Nas minhas memórias.

Nos meus pensamentos.

Nos meus sonhos.

E, sobretudo, no meu coração.

Dois meses sem vocês…

Dois meses de saudade.

Dois meses de noites difíceis.

Dois meses a desejar que o próximo dia seja aquele em que tudo começa a mudar.

E enquanto esse dia não chega, continuarei a guardar as nossas memórias e a escrever-vos.

Porque o tempo pode passar.

A distância pode separar-nos.

A vida pode mudar.

Mas há uma coisa que nunca mudará… o amor que sinto por vocês.

Até ao próximo abraço, meus filhos.

Amo-vos muito. ❤️

Papis

28.02.2026